segunda-feira, 18 de maio de 2009

Hilda, Hilda, onde está você?


Ultimamente entrei numas de tentar fazer crítica literária. Estou cursando uma disciplina no Departamento de Linguas e Letras e tudo o mais.
O primeiro trabalho entregue foi sobre Bandeira, analisei "Não sei dançar". Agora, lanço-me a vôos mais altos.
Acontece que na Biblioteca central da Ufes não tem nadinha nadinha sobre Hilda Hilst. Procurei livro por livro da bibliografia indicada no fim de "Da morte. Odes mínimas" e nada.
Quer dizer, dois livros escritos por um professor da Ufes constavam no site, mas no papel que é bom - nada. Revirei estantes, se vocês querem saber. Fiquei lá por longos minutos varrendo poeira e tentando - em vão - encontrar alguém que me falasse de Hilda.
Então falo eu.
Por que "Da morte. Odes mínimas", é um belíssimo livro de poemas que merece ser garimpado e relido por quem quer que o encontre. Trata-se de sensualidade, medo, desafio, dor e uma vontade estranha de um encontro com a morte.
Transcrevo:

"Demora-te sobre minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu me percorras cuidadoa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens."

Preciso invetigar os versos com cuidado. Ver a métrica de tudo e saber or que os homens se fazem carne e posse e de onde vem essa coisa de ser como um homem na pra de conhecer a morte.
Por que a hora seria dura para a morte? E por que a morte tem que ser uma mulher forte? E se é mulher, como é que toma percorrendo sensualmente e por que Hilda tem de ser o homem?


quarta-feira, 6 de maio de 2009

Don Juan


Eu também acho muito bonita a imagem do Joohny Depp. Inspiradora, inclusive. Mas a história de Don Juan de Marco, o filme, não é a mesma de "Don Juan", a peça de Molière.
A peça não é um drama e Don Juan não é um mocinho. Trata-se de uma comédia inteligente que traz como protagonista um vilão autêntico, sem qualquer escrúpulo. Ele corrompe todas as mulheres que toca, mente, joga charme e lida com todas as situações usando a sua inigualável lábia.
Um de seus credores solta a ótima máxima: "Eu preferia que ele me tratasse pior e me pagasse melhor". Don Juan usa mesmo de muita educação para destilar terceiras e quartas intenções.
A tradução que li foi feita por Millôr Fernandes para a L&PM Pocket. A mesma versão esteve em cartaz trazendo Edson Celulari no papel do conquistador.
Pra quem fica só na leitura, vale saber que é simples e arranca gargalhadas de qualquer um que seja capaz de imaginar as cenas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Henry & June

Alguns livros são espelhos. Nesses, me perco e me descubro aos poucos e sempre dolorosamente. Amanheci e adormeci confessional e nova. Meus pedaços estão todos afetados pela narrativa íntima de um diário.
Tenho lido compulsivamente e repetidamente os diários não expurgados de Anaïs Nin. Henry e June é o livro mais conhecido da autora, trata-se de trechos dos seus diários escritos entre o fim de 1931 e 1932.
Primeiro, me senti invasiva sabendo que leio o diário de uma mulher do século vinte. Depois, me senti Alaíde abrindo o baú de Madame Clessi.
Esse diário foi publicado apenas depois da morte do último personagem vivo, Hugo, marido de Anaïs. Me disseram que esses diários são melhores que os romances dela. Não li. Não sei.
Eu só sei que continuo envolvida por escritos densos diários que me botam à prova.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Para gostar de ler

Esses dias eu estive chateada, pesada, cansada e triste. Queria matar uma sujeita ou quem sabe apenas discontar tudo em facadas distribuídas por aí.
Acontece que eu tinha há um tempo aprendido a receita do bom-humor com Poliana, pensar o lado bom das coisasa e tudo mais. Tentei ao máximo e chegou uma hora em que eu só lembrava do poema do beco.
Pra essas horas, é bom ler Rubem Braga. Qualquer coisa dele lava a alma suja e cansada e faz a gente voltar a lembrar que sorrisos existem.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Quem é Capitu?

A personagem mais polêmica da literatura brasileira, ganha várias versões sobre sua personalidade, sua suposta traição e as dúvidas de seu marido.
Alberto Schprejer organizou um livro, formando um time de feras: Fernanda Montenegro, Luiz Fernando Carvalho, Mary Del Priore, Gustavo Bernardo, Carla Rodrigues, Lya Luft, Silviano Santiago, John Gledson, Otto Lara Resende, Luis Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, Roberto DaMatta, Daniel Piza, Lygia Fagundes Telles.
Com uma bela e incógnita personagem nas mãos, os autores tentam "atar as duas pontas da vida" de Capitu, uns na defesa e outros, acusação. Alguns são polêmicos como a própria Capitu. Mary Del Priore faz uma conclusão histórica do machismo para defender Capitu. Enquanto que Otto Lara Resende (que fica perplexo com o fato de todos duvidarem da sanidade de Bentinho), incrimina Capitu sem dó. No entando John Gledson, discorda friamente de Resende, usando sua idade como desculpa da sua incompreensão da obra.
Verissimo e Millôr Fernandes duvidam da sexualidade de Bentinho, transparecendo nos seus textos a bissexualidade de Bentinho e o ciúme (e o amor) por Escobar e não por Capitu. Citando passagens em que Bentinho demonstra o seu amor por Escobar, que é discreto porém não totalmente escondido.
Além de Del Priore, Carla Rodrigues cita também a feminista americana Helen Caldwell, que propos em 1960, uma releitura de Dom Casmurro para a defesa de Capitu, contra o machismo do século XIX.
Além de tudo isso e mais alguns ótimos textos e crônicas dos outros autores, Luiz Fernando Carvalho dá detalhes de como a minissérie, que foi ao ar em rede nacional em dezembro do ano passado, Capitu, foi feita, imaginada e dirigida. Contém as observações e os desenhos do diretor que inundou de boa literatura as salas de muitos brasileiros. E claro, mais uma vez, a atriz Fernanda Montenegro entrando no personagem, faz uma reflexão maravilhosa sobre a polêmica Capitu.

Quem é Capitu, ninguém ao certo sabe. A dúdiva continua na mente de muitos críticos, escritores, poetas, estudiosos, jornalistas, feministas e etc.
O fato, é que Machado de Assis, o gênio e culpado pela existência da Academia de Letras, Realismo brasileiro e a traição ou não de Capitu, morreu e levou consigo o segredo que por mais que os intelectuais tentem, nunca vai ser desvendado.
Machado escreveu a realidade humana em uma única mulher: bonita, inteligente, sagaz, estrategista e principalmente, misteriosa.



Obrigada Aline, por confiar em mim para dividir o blog!
Grande beijo.

terça-feira, 3 de março de 2009

O amor nos tempos do cólera

Quanto tempo dura um amor?

Não pergunte a mim. Nem seria capaz de responder como é que se reconhece o que pode ser amor ou não. A questão do tempo, quem bem esclareceria seria Florentino Ariza, que atravessou longos cinqüenta e três anos amando em silêncio a mesma mulher: Fermina Daza, uma senhora casada com um renomado médico, Juvenal Urbino.

Assim se estabelece o triângulo amoroso principal de um dos livros mais bonitos que eu já li: “O amor nos tempos do cólera”, do genial Gabriel Garcia Márquez.

O livro precisa ser lido não apenas como uma história de amor, mas por suas tiradas e as minuciosidades das personalidades e dos nomes das personagens. Por exemplo, Fermina Daza é descrita por seu caráter forte, é firme; enquanto Florentino Ariza é um poeta que jamais conseguiu escrever um memorando formal sem os floreios das cartas de amor.

Também vale ressaltar como o cólera aparece de coadjuvante da história: entre os mortos que as personagens vêem numa viagem de navio, como pretexto para os amantes ficarem sozinhos, confundido com o amor de Florentino Ariza. Foi aí que veio, entre vômitos, dores e febres, a frase derradeira: “o amor tem os mesmos sintomas do cólera”.

No mais, eu não assisti ao filme que foi feito à partir do livro, mas achei interessante botar o trailler pra caso alguém se interesse.


segunda-feira, 2 de março de 2009

Chega de saudade


“Chega de saudade” é um amontoado de histórias reais sobre pessoas reais que se lê como um romance. Os conflitos, os amores e as maluquices fazem com que qualquer leitor se sinta parte daquilo e queira viver tudo. Nos surpreendemos com histórias de pessoas públicas, como Nara Leão, Vinícius de Moraes e João Gilberto, que acabam se tornando, através da leitura, como vizinhos nossos – quase amigos íntimos!

No decorrer da obra, Ruy Castro narra as histórias da Bossa Nova. O livro começa com a infância João Gilberto na Bahia, passa por curiosidades sobre canções e pessoas, e termina com o disco que Tom Jobim gravou com Frank Sinatra nos Estados Unidos, tocando violão.

Com “Chega de Saudade” na mão, o leitor deve estar atento a como alguns acasos aparentemente irrisórios deram origem a canções que marcaram época e como as relações entre as pessoas influenciaram acontecimentos históricos.

Roberta Sá - Chega de Saudade

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Nelson no bar com a gente

Cheguei no bar em êxtase.
- Danilo! Terminei o livro com as peças do Nelson.
- E agora, como é que você está se sentindo?
- Muito mais adúltera do que antes. E olha que eu estou solteira.
- Certo.
- Quer dizer, adúltera não. Eu sou honestíssima!
- Sei. Viúva, porém honesta.
- Olha aqui. Eu sou praticamente um Joice de "O anti-Nelson Rodrigues".
- Sim. Você é uma moça de família!
- Eu ia falar Lídia, mas aí eu lembrei que ela foge com o motorista e eu juro que esse não era o destino que eu queria pra mim.

* De fato, a conversa existiu. Numa sexta-feira de carnaval *

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A Grande Arte


Foi assim: um flerte completamente ao acaso. Pensei no nome que tinha ouvido alguma vez e pouco depois meus olhos pousaram magicamente no mesmo nome. Vieram mil coisas sobre soncronicidade, coincidências e signos do zodíaco à minha cabeça.

Passou logo. Eu estava num sebo e era natural que eu encontrasse aquele livro ali. Dei uma enrolada, mantive-o na minha bolsa por algumas horas. Não tinha pressa.

Acontece que foi só começar que eu não pude parar. Engoli o livro sem dó em dois dias. Feito paixão de carnaval.

E foi isso mesmo. A Grande Arte, do Rubem Fonseca, foi a minha paixão deste carnaval. Não sei se pelo charme de Mandrake, o personagem principal - um advogado sedutor metido a detetive-, ou pelo enredo bem amarrado e cheio desses inesperados com substância. Posso ter me apaixonado também pela ausência de rodeios que afronta e corta, como as facas que guiam toda a história. Não sei.

Sei que me vi nas falas e no rosto das amantes todas de Mandrake e também nele. Queria descobrir o assassino que fez um P na cara de suas vítimas, duas prostitutas.

Foi então que o flerte me tomou tempo de sono e povoou meus sonhos. Fiquei arrebatada por muito pouco e sem qualquer rodeio. Não era óbvio o fim e nem dizia demais.


Quero mais Rubem Fonseca.

Com porrada.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Um livro para ser sentido: Paisagem sobre corpo em silêncio

Alertaram: “A capa diz muito. Perceba”. E é assim: branco, preto, formas geométricas simples, mas desfocadas e um pouco de vermelho que pode ser sangue ou paixão. Simplicidade, desfoque e vermelho permeiam o sétimo livro de poemas do Alexandre Moraes, “Paisagem sobre corpo em silêncio”, que será lançado na quinta-feira, dia 27 de novembro às 19 horas na Adufes, que fica no Campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo(Ufes).

Como nos outros livros, Moraes escreve sobre temas como a cidade, o amor, a dor existencial, a dor social e o silêncio com olhos de quem vigia o mundo e inclusive se sente ligado à Clarice Lispector por conta disso.

No prefácio, escrito pelo também poeta e professor do Departamento de Línguas e Letras (DLL) da Ufes Wilberth Salgueiro, há um aviso que precisa ser levado em conta. “Cada leitor há de reconhecer, com mais ou menos precisão, a presença de Drummond (e como!), Chico Buarque, Caetano, Cabral, Graciliano, Guimarães, Cortázar, Dostoiévski, Bandeira, Baudelaire, Ana C., Clarice, Carrol, Marx, Pound etc. – porque cada um de nós tem um etc. particular(...)”.

Em “Paisagem sobre corpo em silêncio” há todos esses autores e um eu-lírico forte que narra e canta quase como se dançasse durante cada verso e cada frase com uma lâmina na mão. Nem um pouco inocente e ao mesmo tempo cheio de doçura, o professor do DLL da Ufes Alexandre Moraes faz o que quer nas linhas que se deu.
E no fim, há socos, choros e afagos cheios de beleza embaralhada como a capa. Paisagem, corpo e silêncio misturam-se em camadas de sentidos que tocam e arrepiam como a literatura deve ser. Como lâmina limpíssima.