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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Casa dos Budas Ditosos

Se nas mil e uma noites Sherazade conta histórias para não morrer, algumas, inclusive, cheias de sacanagem, em “A casa dos budas ditosos” o que motiva a história é o contrário. A protagonista narradora que pode existir mesmo e ter ditado a história, ou não, resolve contar suas sacanagens porque sabe que vai morrer e acha justo dividir o legado. Para ela, a luxúria não é pecado, mas um dom divino que é sua missão na terra.
É este o mote da história e a forma como é contada, parecendo um monólogo, é o que faz ficar ainda mais interessante do que um mero amontoado de pornografias. A luxúria da protagonista tem método e o livro parece ter pretensões educativas. As sacanagens em si parecem coisa tão normal na vida da senhora que não ganham descrições detalhadíssimas. É tudo cru. Palavrões jorram, a linguagem é oral mesmo.
Curiosas são algumas inserções de comentários filosóficos, ideológicos e a pornografia sendo encarada como estilo de vida e forma de leitura de Platão, do feminismo, da política, da academia etc. Viver é foder, diz a protagonista, que faz questão de frisar que esta não é uma conclusão banal, mas uma tese confirmada por sua incursão exaustiva no assunto.
Se os desavergonhados se divertirão com a leitura, também se divertirão os envergonhados. Mesmo absolutamente pornográfico, o livro não é chulo.
Assinado por João Ubaldo Ribeiro com uma nota no começo que diz que a história lhe foi mandada por esta senhora de 68 anos que mudou os nomes e não quer se identificar, “A casa dos budas ditosos” é o volume referente à Luxúria da coleção “Plenos Pecados” e pode ser encontrado em qualquer sebo ou livraria.

sexta-feira, 5 de março de 2010

História do Olho - Georges Bataille


Uma narrativa qualquer, numa praia qualquer em férias de verão, a Espanha continua a mesma com seus espanhóis e estrangeiros, visitando lugares históricos. Este é o cenário para a primeira ficção de Georges Bataille, "História do Olho", livro que ilustra uma filosofia passando do gênero noir e erótico. Como nos livros de Marques de Sade, Bataille busca traços explícitos nas personagens, confiando nelas para expor suas ideias, que ainda eram implícita no começo de sua carreira.
A obra publicada originalmente em 1928, não leva o nome verdadeiro do autor, passando por Lord Auch, marca como em nenhum outro texto seu, o desejo de ser "apagado", uma vez que busca omitir os traços que permitem identificar o verdadeiro nome do autor.
De ficção a auto biografia, Bataille monta a estrutura do livro de uma forma complicada e dissimulada. Misturando o estilo noir e erótico, dá detalhes precisos sobre suas paixões, inspirados sempre por suas leituras místicas, além de Nietzsche e Sade. Tais inspirações só definia mais a suas obsessões fúnebres, relacionadas a violência erótica e ao êxtase religioso. "O sentido do erotismo é a fusão, a supressão dos limites", escreve o autor, explicando a união dos corpos a ponto de se tornar indistintas uma das outras. Ou, como completa Bataille em "O Erotismo", numa passagem que resume seu primeiro livro: "O sentido último do erotismo é a morte".

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Uma espiã na casa do amor


Eu sempre acreditei que existe o livro certo na hora certa. Então foi um acerto começar "Uma espiã na casa do amor", de Anaïs Nin. A protagonista Sabina sou eu e é você também.
A Ariel tinha razão quando disse que o que a Anaïs escreve toca qualquer mulher. Que nos convence das coisas mais impensáveis. Adultério parece aceitável e tudo.
Mas não é apenas uma questão de adultério. Sabina vive a revolução sexual do século passado.
O livro é a história dos questionamentos internos e da culpa e do conflito de uma mulher. Cada amor um galho e várias perguntas sobre o começo de tudo.
Sabina reflete sobre as marcas das coisas, sobre o lugar dela mesma em cada um desses amores. Sobre a paixão e a necessidade de não se fixar se fixando em todas as pessoas.
Vai ficando aos pedaços enquanto tenta ter lucidez para continuar.
Diz que é atriz e finge muitas coisas, tentando se encontrar e descobrir qual das Sabinas é ela mesma.
Tudo se incendeia e nada é muito certo.
A contra capa do livro diz que se trata de um mergulho na sensibilidade.
Talvez seja isso mesmo.
Talvez por isso a Anaïs consiga me arrancar um pedaço a cada linha e me fazer pensar em cada detalhe de mim mesma.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O Pai do Sadismo


Ao contrário das místicas que faziam de seu corpo o instrumento de salvação divina, os libertinos, insubmissos e rebeldes, buscavam viver como deuses e, portanto, libertar-se da lei religiosa, tanto pela blasfêmia quanto por práticas voluptuosas da sexualidade. O exemplo de toda uma geração da descoberta do sexo no Iluminismo europeu, foi Donatien Alphonse-François, comumente conhecido como Marquês de Sade, o pai do sadismo.
Nasceu em Paris, em 1740, e durante toda a sua vida foi censurado por Napoleão II e pelo Clero sobre suas obras “perversas”. Depois de ser preso diversas vezes, o seu título de Marquês, (e com a ajuda da segunda mulher) lhe serviu para em vez de continuar na prisão, ir para o sanatório de nome Charenton, onde morreu em 1814, depois da autoflagelação e sodomia.
Enquanto estava em Charenton, escreveu uma de suas maiores obras chamada “Justine ou Os Infortúnios do Amor”, que foi vendido clandestinamente por toda França, sendo proibido logo em seguida por Napoleão II, o que não funcionou como previsto, uma vez que muitas cópias foram feitas mesmo antes de Napoleão as queimá-las em praça pública.
Na vida e na literatura o Marquês foi coerente. Se por um lado passou a vida em prisões, pagando por crimes de licenciosidade (que na verdade nunca ocorrera), perversões, violência sexual, etc, por outro lado legou à história uma obra ampla e complexa, testemunha de seu tormento sexual, estudado até nos dias de hoje pelos maiores psicanalistas, inclusive por sua qualidade inquestionável.
Escreveu entre outros livros “Diálogo entre um Padre e um Moribundo” (1782), “Os 120 em Sodoma” (1785), “Justine” (1788), Filosofia na Alcova (1795),“Os Crimes de Amor” (1800), “O Marido Complacente” (final do séc. XVIII), que ao contrário dos outros livros, é uma reunião de contos escritos com exímia técnica – uma característica do próprio – e uma amostra fiel de seu universo literário e totalmente pessoal.
Marquês de Sade escrevia contos “perversos” de maneira que demonstrava de certa forma, o que acontecia na França e na Itália (Veneza) na época, retratando um pouco em suas obras sua passagem pela Revolução Francesa. Sade é o puro hedonismo encarnado.
E é em São Paulo, na Praça Roosevelt no bairro da Consolação (praça muito conhecida por seus teatros e freqüentadores), no Teatro Espaço dos Satyros, que três obras de Sade foram adaptados para o teatro. Entre eles estão “Os 120 dias em Sodoma”, “Justine” e “Filosofia na Alcova”. O preço do ingresso não passa dos R$ 30,00. Estão em cartaz há um tempo razoável e não se sabe até quando continuam. Contam com a presença de ótimos atores e de acordo com a crítica as peças são um tanto fiéis aos livros. Por isso, um pequeno aviso, como já diria o ilustre Marquês: “Qualquer puritanismo, deixe-o, por favor, do lado de fora do teatro”.
Não só no teatro, mas se encontra Sade também no cinema, em “Os Contos Proibidos de Marquês de Sade”, (no título original, “Quills” de 2000), do diretor Philip Kaufman, e Geoffrey Rush no papel de Sade, fazendo um grande trabalho e também muito aclamado pela crítica.

sábado, 23 de maio de 2009

Anais Nin - Feminismo, Sexo, Miller e Incesto.


Era uma vez uma menina de 12 anos, que nascera na França, e um dia resolveu escrever diários. Depois de um tempo, quando seu pai abandonou sua família, todos se mudaram pra Nova York, onde ela estudou literatura nas melhores escolas. Seus diários são mundialmente conhecidos. Seus amores invejados. Suas experiências sexuais e amorosas, sem comparação. O amor por um grande homem e o desejo pelo pai.

Precursora feminista francesa, só não superando Joana D'Arc. Esta é Anais Nin. Uma das mulheres mais fascinantes da literatura erótica francesa, uma aprendiz de Marquês de Sade, só que com o vocabulário fresco e torto de uma verdadeira dama. Uma das únicas escritoras que resolveu mostrar ao mundo da primeira e segunda Guerra Mundial, que a mulher também tinha sexualidade, que também tinha prazer, também gozava e gostava literalmente de meter.
Casada 2 vezes e primeiro com Hugo, depois com Rupert. Na maioria dos seus diários, Hugo é o amor de sua vida, mas não consegue se manter longe do amor de Henry Miller. Sim, um dos maiores escritores norte americanos de literatura erótica, teve um envolvimento louco e um tanto conturbado com Anais, além de June, na época a mulher de Miller, com quem ela se envolve e apaixona, tendo seu primeiro contato com o lesbianismo, que ela descreve lindamente em "Henry & June".
Ademais, seus envolvimentos com o primo Eduardo e o que entrou para a história e virou a continuação de "Henry & June", o livro "Incesto", que conta como Anais conheceu o pai, Joaquin Nin, e teve com ele um caso de incesto. Mais que sexo, a paixão e o amor que ela descreve ter pelo pai, algo impensável na nossa sociedade.

O mais intrigante, é que Anais faz as coisas mais "macabras" aos nossos olhos do séc. XXI e nem assim ela consegue se vulgarizar. É uma das únicas mulheres que escreveu livros e mais livros sobre a sexualidade feminina, escrevia palavras de baixo calão e nunca deixando de ser suave, fina, clássica e sensual.
É tão fascinante, que qualquer mulher se vê em Anais. É quase surreal a maneira de ela provar por A+B que nós somos todas iguais quando se trata de sexo. Até a mais católica das mulheres consegue se ver em seus livros e diários. É incrível como ela deixa a situação mais vulgar em algo totalmente pleno e delicado, intocável, de porcelana.

Antes de qualquer crítica arrasadora, qualquer julgamento precipitado, tente ler como ela explica todas as situações que ela se encontra. Ela te convence que ter relacionamentos fora do casamento, ou até transar com o próprio pai, tem um quê de beleza que raramente se vê. Ela mostra toda essa beleza nas entrelinhas.

Entre as obras de Anais, estão os diários e os livros "A casa do Incesto", "Delta de Vênus", "Passarinhos" e "Uma espiã na casa do amor".
Se vale a pena ler? Só tenho a comentar que, eu sou uma das muitas mulheres que virou escrava dessa outra. E adora, de todo coração, suas investidas penetrantes e ardentes. Simplesmente indescritível.