
Como uma mulher em pleno século XIX, órfã, Chanel poderia ter sido uma dócil dona de casa (dependente e submissa). Porém, Chanel não era dessas mulheres que se entregavam facilmente às normas e padrões da época. A partir de uma ajudinha financeira do seu primeiro (de muitos) amante rico, Balsan, Chanel criou seu primeiro ateliê, que logo que lucrou, pagou-lhe o empréstimo. Como sua primeira “peça”, a estilista adaptou para mulheres, o chapéu de gondoleiro de jérsei. Coco adorava montaria, o que a influenciou a adaptar a calça de montaria masculina para uma calça mais delicada, com linhas e cortes femininos. De repente todas as mulheres mais chiques de Paris, tinha um item marcado com dois Cês, que virou a cara de marca e ícone de glamour. Ou o chapéu, ou a calça de montaria, e claro o clássico perfume Chanel Nº 5, que serviu não só para deixá-la rica, livrá-la de problemas com o governo francês, como até a musa Marylin Monroe usar o perfume e eternizá-lo.
Como disse a autora, se Chanel visse o mundo de hoje, ela no mínimo surtaria, tal é a mudança radical que a moda sofre desde a década de 1970 (Chanel morreu em 71). Se a revolução sexual e a mini-saia foram desaprovadas por Chanel, imagine se ela visse as barbáries fashions que o mundo anda cometendo. Como ela mesma disse, “morreria de desgosto”. Coco odiava tudo ao que se referia à revolução sexual da mulher, apesar de ser uma e não gostar de obedecer ninguém.
Com bom humor, classe, ironia e uma escrita intimista, Karbo conta a história da vida de Coco, usando suas frases como parâmetro e se baseando em muita pesquisa, uma vez que a estilista reinventava sua história todas as vezes que dava uma nova entrevista. A reinvenção de Chanel acabou virando um capítulo inteiro no livro de Karen, que explica o porquê a estilista tinha essa mania da auto-reinvenção.
No final do livro, Karbo nos deixa uma linda mensagem de perseverança e amor ao que se faz dita pela própria Coco, em uma entrevista à revista New Yorker. Declarou que nunca se arrependeu de nada do que fez e que viveu pela moda. Viveu para o seu “maior desafio”, que segundo a estilista, era deixar as mulheres sempre belas em qualquer situação. Apesar da declaração, o mundo mudou muito depois de Chanel e tudo que a estilista tocou virou herança, peças raras, peças impagáveis e nada democráticas. Hoje é o usurário que tem de ser digno para usar uma peça cravada com os dois Cês.